De repente tudo terminou. Vida. Amor. Benzinho. Mozão. Bebê.Palavras que antes eram abrigo viram ecos. Cada relação cria seu próprio dicionário, um idioma íntimo, feito de apelidos, silêncios compreendidos e gestos pequenos que só dois sabem traduzir. Essa é uma das mais belas linguagens do amor: a de nomear o outro como quem cria um lugar seguro no mundo. Mas por que, então, um raio cai sobre os apaixonados? Por que, em frações de segundos, a ternura se transforma em turbilhão de desavenças? Talvez porque o amor não seja estático. Ele vive do encontro entre expectativas, medos, histórias mal cicatrizadas e sonhos que nem sempre caminham na mesma direção. Quando tudo vai bem, essas diferenças se acomodam, fazem acordos silenciosos. Quando algo se rompe, uma palavra mal colocada, uma ausência prolongada, uma verdade adiada, o idioma comum começa a falhar. O que antes era carinho passa a soar como cobrança. O que era cuidado vira peso. O raio não cai do nada. Ele se forma aos poucos, nas nuvens que se acumulam sem que ninguém queira olhar para o céu. E quando cai, assusta porque ilumina tudo de uma vez: aquilo que foi dito, o que nunca foi, e o que já não se sustenta. Ainda assim, mesmo depois da tempestade, ficam vestígios. As palavras não desaparecem; elas mudam de lugar. Deixam de ser chamadas e passam a ser lembranças. Doem, é verdade, mas também ensinam. Mostram que amar é aprender uma língua sabendo que, um dia, talvez, seja preciso desaprendê-la. E talvez a maior maturidade esteja nisso: reconhecer que nem todo dicionário é eterno, mas todo amor, enquanto existe, é real. Mesmo quando termina, mesmo sendo momentaneamente, poliglota do amor.
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