No princípio do ano, depositei em uma urna todos os meus desejos. Eram pedaços de esperança dobrados com cuidado, pequenos mapas de futuro escritos à mão, como se o simples ato de guardá-los fosse suficiente para que o tempo os reconhecesse. Fechei a caixa feita por mim com a fé silenciosa de quem acredita que o ano saberá o que fazer com aquilo. Agora, quando o ano que ora se finda pede passagem, abro a caixa. O som discreto da tampa parece maior do que é. Ali, diante de mim, repousam sonhos que não caminharam, projetos que não encontraram chão, planos que permaneceram intactos, não por estarem preservados, mas por nunca terem sido usados. Entre eles, havia um desejo de natureza mais sensível. Não era grandioso nem ruidoso. Era apenas a vontade de uma aproximação maior com alguém que admiro. Um desejo simples, quase humilde de estar mais perto, dividir mais instantes, permitir que a convivência crescesse naturalmente. Mas esse papel também permaneceu ali, dobrado do mesmo jeito que foi colocado, intocado pelo tempo. Há uma melancolia tranquila em perceber que nem tudo o que se deseja encontra reciprocidade, que nem toda intenção encontra passagem. Algumas vontades esbarram em silêncios, outras se perdem na distância que não se mede em passos, mas em impossibilidades. O ano, sábio e indiferente, segue sem explicar suas escolhas. Ainda assim, ao reler cada desejo, compreendo que o não acontecido também ensina. Há aprendizados que só nascem da espera, outros da frustração, outros ainda da aceitação de que certas coisas não dependem apenas de nós. Algumas metas não se realizam porque não era o tempo. Outros porque precisavam permanecer como sonho. Fecho a pequena arca novamente. Não com ressentimento, mas com entendimento. O ano não me deu tudo o que pedi, mas me devolveu algo talvez mais valioso: consciência. E levo comigo a certeza de que, no próximo ciclo, os desejos serão menos ingênuos, mais verdadeiros, e talvez mais preparados para enfrentar o mundo fora da caixa. Porque, no fim, a vida não se mede apenas pelo que acontece, mas pelo que permanece em nós quando aquilo que esperávamos não veio a contento.
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