terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Entre o zumbido e o silêncio.

O vento quente do ventilador não me deixa dormir, assim como os insólitos pernilongos que, sem pudor, insistentemente sobrevoam meu corpo, transformando a noite em almofada de agulhas. São várias denominações para várias doenças. Nomes difíceis que se acumulam como papel em gavetas antigas e eu, preocupado com a nova picada nas mãos de profissionais. A idade avançada é ingrata; o único presente que o tempo nos dá são as morbidades, embrulhadas em laudos e recomendações. Entre uma espetada e outra, penso no corpo que já foi território firme e hoje é mapa cheio de advertências. Cada dor acorda memórias, cada insônia convoca balanços. O silêncio da madrugada não é vazio: ele pesa, fala e também cobra. O tique-taque invisível do relógio mede não apenas horas, mas a resistência que teima em não avançar. O ventilador insiste, os pernilongos também, e eu permaneço. Há uma teimosia mansa em continuar respirando apesar do desconforto, em esperar o amanhecer como quem espera uma trégua. Talvez dormir seja luxo, mas vigiar a própria existência virou hábito. E assim sigo, entre o zumbido e o silêncio, aprendendo a negociar com o tempo, esse médico sem mãos que nunca pergunta onde dói. 

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