Falar de minha mãe é voltar no tempo e reencontrar uma parte muito bonita da minha vida. É abrir as portas da memória e rever uma família grande, simples, unida e, acima de tudo, feliz.
Minha mãe teve nove filhos:
Alice, Cândido, Marco Aurélio, Almir, Angela, Ana Cristina, Telma, André e eu,
Angelo. Ao lado de meu pai, dedicou praticamente toda a sua existência à
criação dos filhos. Ele era o provedor da casa e trabalhava como administrador
de um hospital. O cargo parecia importante, mas o salário era pequeno para
sustentar uma família tão numerosa. Vivíamos em uma casa simples, onde as
dificuldades faziam parte do cotidiano, mas nunca faltaram respeito, dignidade
e amor.
Meu pai, pelo que me lembro,
jamais precisou levantar a mão para nos corrigir. Já minha mãe tinha outro
método: a famosa correia! (risos). Naquela época, talvez fosse uma maneira
comum de educar. Hoje, lembramos disso com humor, mas sabemos que, por trás
daquela correção, havia uma mãe preocupada em ensinar seus filhos a seguir o
caminho certo.
E valeu a pena.
O maior patrimônio que nossos
pais nos deixou não foi material. Foi o caráter, a educação, a união e a
determinação para enfrentar a vida. Eles nos ensinaram que, mesmo quando quase
tudo parecia difícil, era possível seguir em frente com dignidade.
Éramos muitos e precisávamos
aprender cedo a colaborar. Para jogar futebol, por exemplo, precisávamos pedir
à minha irmã Angela que falasse com nossa mãe. A autorização só vinha depois de
cumprirmos nossas obrigações: buscar água no poço para abastecer a casa e
varrer o enorme quintal. Só então o futebol estava liberado.
Meu pai também foi um homem de
coragem. Ter sete filhos naquela época já era uma grande responsabilidade, e
depois vieram mais dois, em dias melhores. Ele encarava aquela realidade com
obstinação, trabalhando e fazendo o possível para que nada faltasse aos filhos.
Tivemos também pessoas
importantes que contribuíram para nossa caminhada. Meu tio Haroldo, irmão de
meu pai, funcionário do Banco do Brasil, ajudou muito nossa família,
especialmente meu pai. Sua presença foi significativa em uma época em que
qualquer ajuda fazia enorme diferença.
Na educação, tivemos a querida
professora Dona Nilza, que nos preparou para o exame de admissão ao ginásio.
Naquele tempo, para entrar no ginásio, era necessário prestar um concurso. Ela
teve participação importante na formação de vários de nós e, de alguma maneira,
ajudou a abrir caminhos para o futuro.
As lembranças familiares são
muitas.
Aos domingos, às vezes, meu tio
Haroldo aparecia para almoçar em nossa casa. Eram momentos simples, mas que
ficaram guardados na memória.
Minha avó Lucia e seu marido,
Agenor, também foram personagens importantes da nossa infância. Agenor nos
proporcionava pequenas alegrias que, para nós, tinham um valor enorme. Era ele
quem nos levava ao barbeiro para fazer aquele corte chamado “Príncipe Danilo”.
Depois, ainda recebíamos um dinheirinho para comprar doces. Isso acontecia aos
sábados e era uma verdadeira festa.
Ele também ajudava com o dinheiro
da passagem do bonde para os irmãos que estudavam mais longe de casa. Eu fui um
dos beneficiados. Hoje parece algo pequeno, mas naquela infância cada moeda
tinha um significado especial.
Aos sábados, assistíamos à série
“Bonanza”. Em determinada época, o professor de violão, Domiro dava aulas para
meu irmão Cândido. Por volta das dez da noite, após a série, a minha mãe preparava aquele chocolate quente
com pão e manteiga. Não havia luxo, mas havia aconchego. E talvez seja
justamente por isso que essas lembranças tenham permanecido tão vivas.
Quando minha avó ficou gravemente
enferma, passamos a dormir na casa dela. À noite, íamos em duplas para lá.
Durante a tarde, quando voltávamos da escola, levávamos o almoço de bicicleta.
Eram responsabilidades que faziam parte da nossa rotina e que, sem percebermos,
ajudavam a formar quem seríamos no futuro.
Olhando para trás, percebo que
fomos pobres em bens materiais, mas ricos em experiências, afeto e valores.
Havia dificuldades, mas também
havia sonhos. Havia pouco dinheiro, mas existia disposição para trabalhar. A
casa era simples, porém cheia de filhos, vozes, brincadeiras, obrigações,
broncas, risadas e histórias que hoje se transformaram em saudade.
Minha mãe foi uma mulher dedicada
à família. Junto com meu pai, construiu, dentro das possibilidades que tinham,
um lar onde aprendemos a respeitar as pessoas, a valorizar o esforço e a
compreender que a vida exige coragem.
Hoje, quando penso nela, não
quero lembrar apenas da ausência. Quero lembrar da mulher que esteve presente
em tantos momentos da nossa formação. Quero lembrar de suas mãos, de suas
preocupações, de suas correções, de suas renúncias e, principalmente, do amor
que existia por trás de tudo.
Nove filhos representavam uma
enorme responsabilidade. Criar uma família numerosa naquela época era uma
verdadeira luta. Mas eles venceram essa batalha da maneira que puderam, com
trabalho, perseverança e fé no futuro.
Nós, filhos, somos parte desse
legado.
Alice, Cândido, Marco Aurélio,
Almir, Angela, Ana Cristina, Telma, André e eu, Angelo, carregamos histórias
diferentes, mas temos uma origem comum. Somos frutos de dois seres humanos que
fizeram o melhor que podiam com os recursos que possuíam.
Hoje entendo que a maior herança
de meus pais não estava na casa, no dinheiro ou nos bens que não tivemos.
Estava em nós.
Está naquilo que aprendemos. Na
maneira como fomos educados. Na dignidade que recebemos. Na coragem para
enfrentar as dificuldades. Na importância da família. Na lembrança dos pequenos
gestos. E, sobretudo, no amor que permanece mesmo depois que alguém parte.
Minha mãe se foi, meu pai, também,
mas suas histórias continuam vivas em cada um de nós.
Enquanto houver memória, haverá
presença.
E enquanto seus filhos puderem
contar essas histórias, ela continuará vivendo dentro da nossa família.
Minha mãe deixou saudade.
Mas deixou, acima de tudo, um
legado.
E esse legado somos nós.