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domingo, 1 de novembro de 2026

Quando as palavras já não florescem.

Já não tenho inspiração para escrever. Desde a chegada da inteligência artificial, tudo me parece estranho, quase antinatural. Os pensamentos que outrora habitavam minha mente como pássaros livres, construindo imagens, emoções e expectativas para os leitores, hoje parecem desertos silenciosos. Há um vazio que nenhuma tecnologia consegue preencher. Recordo-me de quando a poesia possuía alma. Bastava abrir um livro e os versos respiravam diante de nós. As flores não eram apenas palavras; exalavam perfumes. O amor não era apenas tema; era presença viva. Havia calor nos poemas, uma chama invisível capaz de iluminar os recantos mais profundos da memória. Agora, porém, os tempos mudaram. Os sistemas se renovam, os costumes se transformam e os hábitos antigos parecem condenados ao esquecimento. Dizem que devemos acompanhar essa evolução. Talvez seja verdade. Quem sabe não exista outro caminho. Mas sinto falta da beleza simples que habitava as coisas. Sinto falta daqueles textos que se demoravam diante de uma janela aberta para o entardecer. Dos retratos pendurados nas paredes, guardando o rosto da mulher amada. Das cartas escritas sem pressa, nascidas da necessidade de eternizar um sentimento. Das palavras escolhidas com o cuidado de quem cultiva um jardim. Os pássaros continuam cantando, mas seus trinados já não chegam aos meus ouvidos da mesma forma. Misturam-se às lembranças de um tempo em que tudo parecia mais próximo, mais humano, mais verdadeiro. Hoje seus cantos parecem perdidos na distância, carregando saudades que não encontram morada. Não é o futuro que me assusta. Nem as máquinas. O que me entristece é perceber que, enquanto aprendemos a produzir palavras com uma rapidez jamais imaginada, estamos esquecendo o silêncio que lhes dava sentido. Porque a poesia nunca viveu nas páginas. Ela vivia no perfume das flores, na luz que atravessava as janelas, nos retratos cobertos de lembranças, nos cantos dos pássaros ao amanhecer e no coração daqueles que ainda sabiam sentir. E talvez seja justamente por isso que as palavras já não floresçam como antes.

 

 


segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A canção dos símbolos.

No princípio havia apenas um ponto, pequeno como uma estrela distante. Depois veio a vírgula, trazendo o fôlego suave das pausas. O ponto e vírgula hesitou entre partir e permanecer. Os dois-pontos abriram portas para mistérios antigos. A exclamação nasceu do espanto diante do amanhecer, enquanto a interrogação vagava pelos caminhos do mundo, perguntando aos ventos de onde vinha a saudade. Entre encontros e desencontros, surgiu o hífen, unindo o que estava separado, e o travessão, longo como uma ponte lançada sobre o silêncio. Os parênteses guardaram segredos, os colchetes protegeram memórias, e as chaves acolheram possibilidades que ainda não tinham nome. As aspas duplas deram voz às histórias contadas ao redor do fogo, enquanto as aspas simples preservaram os sussurros que só o coração podia ouvir. A barra dividiu caminhos. A barra invertida indicou o retorno inesperado. A barra vertical ergueu-se como um marco entre horizontes, lembrando que toda jornada é feita de escolhas. A arroba conectou pessoas distantes. A hashtag reuniu sonhos sob uma mesma bandeira. O cifrão lembrou os tesouros da matéria, mas a porcentagem recordou que nenhuma riqueza é inteira. O &, comercial celebrou as alianças, desenhando no ar uma clave de sol invertida. O asterisco brilhou como uma constelação perdida na vastidão da noite. O sinal de mais somou afetos. O igual buscou equilíbrio entre forças opostas. O símbolo menor que ensinou humildade e o maior que falou sobre crescimento. Sobre algumas palavras, o circunflexo ergueu pequenos montes de abrigo. O til dançou como uma onda suave, emprestando ao idioma o balanço do vento e do mar. Ao longe, o símbolo de grau cintilou como um astro discreto no firmamento. O masculino e o feminino caminharam lado a lado, recordando que a linguagem também é feita de identidade, presença e pertencimento. E o sublinhado permaneceu discreto, sustentando as palavras como a raiz sustenta a árvore. As reticências prolongaram os ecos daquilo que não podia ser dito, deixando suspensas no ar as frases que ainda buscavam nascer. Assim, símbolo por símbolo, escreveu-se uma linguagem feita de encontros, pausas, perguntas, caminhos e sonhos. E quando o último verso terminou, o pequeno ponto voltou a aparecer, não como um fim, mas como a promessa de um novo começo.

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Melodia da vida.

Notas se erguem, como escolhas que fazemos. Algumas claras, outras tensas, mas todas compondo a escala do nosso existir. Viradas do caminho. Acordes mudam, assim como destinos. O que parecia firme se desloca, mostrando que a mesma essência pode soar diferente quando vista de outro ângulo. Tramas do sentir. Entre repouso e tensão, a vida se harmoniza. Consonâncias nos abraçam, dissonâncias nos desafiam. É nesse diálogo constante que crescemos, aprendendo a ouvir até o que não queríamos escutar. Ritmos da jornada. O tempo pulsa, ora lento como um adagio, ora veloz como um alegro. Cada compasso organiza nossos passos, lembrando que até o silêncio faz parte da música que nos conduz. Sinfonia do existir. Assim, a vida é uma sinfonia. As notas são escolhas, as inversões, mudanças de olhar, a harmonia, o equilíbrio entre paz e conflito, os tempos, o ritmo que nos guia. E no fim, cada um de nós é maestro da própria canção. E ao dormir, tudo se renova. 

Nem sempre quem cala, concorda.

Às vezes, o silêncio não é sinal de rendição, mas sim de sabedoria. Calar pode ser a forma mais madura de lidar com situações em que a palavra apenas alimentaria conflitos. O silêncio não deve ser confundido com fraqueza. Ao contrário, pode revelar autocontrole e equilíbrio emocional. Quem escolhe calar, muitas vezes, demonstra que não precisa provar nada a ninguém. Nem toda discussão merece energia. Há momentos em que falar é apenas desperdiçar tempo e paz. Saber quando se posicionar e quando se recolher é uma habilidade que nasce da experiência e da consciência de que nem tudo precisa ser respondido. Optar pela mudez é colocar a serenidade acima da necessidade de vencer debates. É proteger a própria saúde emocional e preservar relações que poderiam ser desgastadas por palavras ditas no calor da emoção. Calar também é refletir. O silêncio abre espaço para pensar, compreender e agir de forma mais consciente. Muitas vezes, é nesse intervalo que surgem as melhores respostas, ou a percepção de que nenhuma resposta é necessária.

domingo, 11 de outubro de 2026

A força do caminho.

A vida ensina em silêncio, com quedas que moldam o chão.  Cada dor traz um sentido, cada prova, transformação.  Confie no tempo que guia, agradeça o instante presente.  Pois todo amanhecer anuncia um recomeço, forte e crescente.  Nunca nos esqueçamos que o solo é duro com a queda, mas é justamente nele que aprendemos a levantar.  Com paciência, coragem e fé, sacudimos a poeira e seguimos em frente, porque cada tropeço é apenas um convite para recomeçar.  O caminho pode ser árduo, cheio de pedras e curvas, mas é nele que descobrimos nossa verdadeira força.  E como disse o grande compositor Paulo Vanzolini: “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.”  Assim, cada passo, mesmo vacilante, nos aproxima de quem estamos destinados a ser.  A força do caminho não está em evitar quedas, mas em aprender a caminhar apesar delas.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

O hábito do silêncio.

Existe uma sabedoria que não faz barulho. Ela se revela quando o mundo desacelera e aprendemos a permanecer em silêncio diante de nós mesmos. A quietação é uma companheira fiel. Não exige explicações, não impõe respostas e, muitas vezes, acolhe aquilo que as palavras não conseguem expressar. É nela que começamos a escutar o que verdadeiramente sentimos. A mais profunda das viagens não acontece por estradas distantes, mas pelo caminho interior. Voltar-se para dentro é atravessar pensamentos, reconhecer emoções, compreender feridas e descobrir forças que permaneciam escondidas. Quanto mais nos conhecemos, menos precisamos buscar fora aquilo que já existe em nossa essência. E há um mestre que nenhum livro substitui: o espírito que habita em nós. Sua voz é sutil, percebida na intuição, na consciência e naquela certeza tranquila que surge quando estamos em sintonia com quem somos. Talvez a verdadeira sabedoria esteja justamente nisso: aprender a calar para ouvir, recolher-se para se encontrar e confiar na luz interior que aponta o caminho. Quando fazemos essa travessia, percebemos que nunca estivemos realmente sozinhos. Dentro de nós existe um lugar de paz, conhecimento e presença espaço onde o silêncio ensina, a alma orienta e a própria existência se torna a grande viagem.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Entre duas margens.

Nascemos do silêncio, com as mãos vazias e os olhos cheios de infinito. Atravessamos os dias como quem recolhe estrelas do chão. Juntamos sonhos, abraços, lembranças, pequenas vitórias e grandes esperanças. Construímos moradas onde o tempo jamais prometeu ficar. Damos nome às coisas, chamamos de nosso aquilo que apenas passou por nossas mãos. E seguimos. Sem perceber que a existência é uma breve travessia entre dois mistérios. O instante em que chegamos e o momento em que partimos. No último suspiro, tudo aquilo que parecia eterno se torna distância. As riquezas perdem o brilho, os títulos tornam-se silêncio, os caminhos desaparecem sob a poeira. Restam apenas os afetos, as palavras que aqueceram alguém, o bem que floresceu por nossa causa, a luz que deixamos acesa em algum coração. Talvez viver seja isso. Receber o infinito por um instante, amá-lo profundamente e, quando chegar a hora, devolvê-lo ao mistério. Chegamos sem trazer coisa alguma. Partimos sem levar tesouros. Entre uma margem e outra, chamamos de vida essa delicada oportunidade de tocar o mundo e deixar nele um pouco da nossa luz. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O que mora no coração.

Nem tudo aquilo que nos faz sorrir precisa estar diante dos olhos do mundo. Há alegrias que preferem o silêncio, sentimentos que florescem longe dos aplausos e pequenos instantes que ganham valor justamente por serem somente nossos. A felicidade verdadeira não exige vitrines. Ela pode morar em um abraço apertado, numa lembrança querida, em um sonho guardado com carinho ou naquele instante em que a alma encontra paz. Existem tesouros que não precisam ser mostrados para serem preciosos. Basta senti-los, protegê-los e deixá-los aquecer, em segredo, o lugar mais bonito que existe dentro de nós. Porque aquilo que realmente importa não precisa de plateia. Basta estar guardado naquele cantinho mágico chamado coração.

  

domingo, 27 de setembro de 2026

A mulher que veio com as águas.

O murmúrio do rio, naquela noite, não me deixava dormir. Da janela de casa, contemplava a madrugada sob a luz pálida da lua. Era uma dessas noites em que o silêncio parece possuir voz. Os pirilampos pairavam sobre a estreita passagem da viela, pequenos pontos luminosos entre as sombras. Ali perto, o Rio Pardo atravessava Paty do Alferes, correndo inquieto. A correnteza carregava folhas e pequenos galhos. De quando em quando, um redemoinho surgia junto à margem e logo desaparecia, como se alguma coisa, escondida sob a superfície, respirasse. Afastei-me da cama e permaneci algum tempo junto à janela. Foi então que ouvi um som diferente. Primeiro, pensei que fosse o vento passando entre as árvores. Depois, pareceu-me um choro. Aproximei-me do vidro. Entre o barulho das águas e o sopro frio da madrugada, distingui um chamado aflito. Abri a janela. E então a vi. Uma mulher. Ela estava parada na viela, alguns metros adiante, como se tivesse acabado de sair do rio. Os cabelos úmidos grudavam no rosto. A roupa estava encharcada. Tremia de frio. Havia nos seus olhos uma tristeza antiga. Por um instante, pensei que estivesse diante de uma aparição. Não sei por que pensei nisso. Talvez fosse a hora, talvez a neblina baixa sobre o rio, talvez aquela maneira estranha como ela permanecesse imóvel, olhando para a minha casa. Abri a porta. Ela entrou sem dizer palavra. Entreguei-lhe uma toalha e acendi a lareira. Deixei suas roupas perto do fogo. Enquanto as chamas cresciam, ela permaneceu sentada, as mãos estendidas para o calor. Aos poucos, começou a falar. Contou-me dos irmãos. Falou de uma grande propriedade onde vivera durante muitos anos. Mencionou pessoas e acontecimentos que pareciam pertencer a uma vida distante, embora, pela maneira como comentava, ainda estivessem muito próximos dela. Algumas coisas preferiu não contar. Falou, sobretudo, da vontade de ir embora. Disse que precisava começar de novo. Eu a escutava sem fazer muitas perguntas. Havia histórias que pareciam pedir apenas um lugar onde pudessem ser ditas. Não me perguntou quem eu era. Talvez não importasse. Quando suas roupas secaram, vestiu-se e ficou alguns instantes diante da porta. Antes de sair, olhou para mim e agradeceu. Em seguida, partiu. Fiquei observando enquanto ela desaparecia pela viela. Por alguns segundos, ainda pude distinguir sua silhueta sob a luz fraca da lua. Depois, a noite voltou a ser apenas noite. Ou pelo menos foi isso que pensei. Algum tempo mais tarde, soube que ela havia reconstruído a vida longe dali. Tornara-se uma cabeleireira de excelência, com muitos clientes e admiradores. Tinha uma casa, novas amizades e uma vida que, segundo me disseram, parecia finalmente lhe pertencer. Nunca mais a vi. Eu continuei onde estava. As mesmas paredes. A mesma janela. O mesmo rio. Mas, depois daquela madrugada, comecei a escutar a correnteza de outra maneira. Às vezes, durante a noite, levanto-me até a janela. Fico ali, ouvindo a água passar. Pensando nela. Não sei  por quê. Só sei que alguma coisa naquela mulher permaneceu em mim. Talvez porque, sem perceber, eu tivesse começado a reconhecer nela alguma coisa que também existia dentro de mim. Eu também adiei minha partida. Repito os mesmos dias, percorro as mesmas ruas, olho pela mesma janela e digo a mim mesmo que ainda não é o momento. Às vezes me pergunto se aquela mulher realmente apareceu na minha porta ou se foi apenas uma dessas histórias que a memória transforma com o passar dos anos. Como se alguns encontros durassem uma noite inteira. E outros, uma vida.

 


sábado, 26 de setembro de 2026

O último amor do ipê.

Quando o primeiro tijolo foi assentado, o pequeno ipê também encontrou seu lugar na terra. O condomínio ainda era jovem, com paredes recém-erguidas e janelas que ainda não conheciam as histórias que um dia guardariam. Ao lado dele, o ipê começava sua caminhada, delicado, quase frágil, mas carregando dentro de si a promessa de se tornar grande. Cresceram juntos. Enquanto o prédio ganhava moradores, vozes, risos e lembranças, o ipê esticava seus galhos em direção ao céu. Suas raízes penetravam silenciosamente o solo, como se quisessem abraçar para sempre aquele lugar que também era sua casa. E assim fizeram um pacto sem palavras. O condomínio lhe oferecia abrigo. O ipê oferecia sombra, flores e beleza. Era uma espécie de simbiose, uma amizade construída sem contratos, sem assinaturas, sem testemunhas. Apenas o tempo como testemunha. Mas o tempo, que aproxima, também transforma. Vieram novos moradores. Alguns nasceram ali, outros chegaram depois. Proprietários partiram, inquilinos ocuparam seus lugares, crianças cresceram e levaram consigo os amores da infância. E ninguém percebeu que o velho ipê também envelhecia. Seus galhos já não tinham a mesma força. Suas folhas rareavam. O tronco carregava as cicatrizes de muitas estações. Debaixo da terra, porém, suas raízes continuavam avançando, procurando espaço, como se ainda buscassem o abraço daqueles que um dia viveram sob sua sombra. Talvez fosse ressentimento. Talvez apenas a natureza seguindo seu curso. As raízes começaram a se aproximar perigosamente do condomínio, provocando, silenciosamente, aquilo que um dia parecia impossível: o velho amigo passou a ameaçar a própria casa que acompanhara nascer. E então veio a dolorosa constatação. O ipê estava morrendo. Não havia mais como devolver-lhe a juventude, nem pedir ao tempo que voltasse. A árvore que havia crescido junto com o condomínio precisava ser retirada para que aqueles que ainda habitavam suas paredes pudessem permanecer seguros. Será um corte necessário, mas jamais será um simples corte. Porque não se derruba apenas uma árvore. Derruba-se uma testemunha de décadas. Cairão os galhos, tombará o tronco, desaparecerá a sombra. Mas permanecerá a história daquele pequeno ipê que nasceu quando o condomínio também nascia e que, durante tantos anos, acompanhou silenciosamente a vida de todos. Talvez seja essa a mais triste lição do tempo. A separação de um amor infinito enquanto durou.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O valor dos gestos espirituais.

A afeição humana e a generosidade cotidiana funcionam como bálsamos restauradores para o espírito, confortando corações durante períodos difíceis da vida. Demonstrar carinho transforma realidades amargas em momentos leves, oferecendo alento essencial à saúde mental e emocional de qualquer indivíduo contemporâneo. Paralelamente, o reconhecimento sincero pelas pequenas graças cotidianas revela que a verdadeira plenitude dispensa excessos materiais ou conquistas grandiosas. Compreender a essência da satisfação pessoal reside, fundamentalmente, na capacidade de contemplar o presente com simplicidade, extraindo alegria profunda de vivências puras e conexões autênticas. A presença de Deus, nos detalhes mais singelos de nossos dias, cuida, protege e supre nossas necessidades, além de nos dar força e coragem para continuarmos a caminhada.

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O que ninguem vê.

Por trás de cada sorriso existe uma história que nem sempre é contada. Há batalhas silenciosas travadas longe dos olhos dos outros, momentos difíceis enfrentados em segredo e lágrimas escondidas para que ninguém perceba a fragilidade. Cada pessoa carrega pesos que não aparecem no rosto. São renúncias feitas por amor, escolhas dolorosas, noites em que foi preciso continuar mesmo sem forças e feridas que o tempo ensinou a esconder, mas nunca conseguiu apagar completamente. Nem toda cicatriz pede explicação. Algumas apenas precisam de acolhimento, compreensão e um pouco de gentileza. Antes de julgar alguém pelo que demonstra, é importante lembrar que podemos conhecer apenas uma pequena parte daquilo que ela viveu. Por isso, tenha cuidado com as pessoas. Um gesto simples pode alcançar um coração cansado. Uma palavra sincera pode trazer alívio. Afinal, dentro de cada ser humano existe um universo de sentimentos, lutas e marcas que ninguém conhece por inteiro. Há dores que não fazem barulho, sacrifícios que jamais serão reconhecidos e cicatrizes que ninguém percebeu quando nasceram. Por isso, antes de julgar uma pessoa pela aparência que ela apresenta, lembre-se imediatamente, que talvez você esteja diante de alguém que passou a vida inteira sendo forte apenas porque não teve quem cuidasse de suas fraquezas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Onde o coração vibra.

Existe um lugar onde nenhuma máscara permanece, onde o silêncio conhece aquilo que as palavras não conseguem dizer. É ali, no centro de nós, que mora a verdade. Onde repousa o coração, revela-se o caminho. E quando a alma reconhece aquilo que é verdadeiro, algo desperto dentro de nós. Uma frequência sutil, uma força invisível, um movimento capaz de transformar intenção em presença. A verdade não precisa ser anunciada. Ela pulsa. Transborda pelos olhos, atravessa os gestos, ilumina escolhas e dá sentido aos passos. Quando o “Ser” entra em sintonia com aquilo que realmente deseja, a vida começa a responder. Portas se entreabrem, encontros ganham significado, e aquilo que parecia distante encontra uma passagem para existir. Porque sonhos não nascem apenas do desejo. Eles florescem quando pensamentos, sentimentos e essência dançam na mesma frequência. Talvez seja esse o segredo das palpitações intensas: quando aquilo que somos reconhece, dentro de nós, aquilo que estamos destinados a viver. Enfim, onde tiver seu coração, lá estará a sua verdade.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O legado de nossa mãe Moema.

Falar de minha mãe é voltar no tempo e reencontrar uma parte muito bonita da minha vida. É abrir as portas da memória e rever uma família grande, simples, unida e, acima de tudo, feliz.

Minha mãe teve nove filhos: Alice, Cândido, Marco Aurélio, Almir, Angela, Ana Cristina, Telma, André e eu, Angelo. Ao lado de meu pai, dedicou praticamente toda a sua existência à criação dos filhos. Ele era o provedor da casa e trabalhava como administrador de um hospital. O cargo parecia importante, mas o salário era pequeno para sustentar uma família tão numerosa. Vivíamos em uma casa simples, onde as dificuldades faziam parte do cotidiano, mas nunca faltaram respeito, dignidade e amor.

Meu pai, pelo que me lembro, jamais precisou levantar a mão para nos corrigir. Já minha mãe tinha outro método: a famosa correia! (risos). Naquela época, talvez fosse uma maneira comum de educar. Hoje, lembramos disso com humor, mas sabemos que, por trás daquela correção, havia uma mãe preocupada em ensinar seus filhos a seguir o caminho certo.

E valeu a pena.

O maior patrimônio que nossos pais nos deixou não foi material. Foi o caráter, a educação, a união e a determinação para enfrentar a vida. Eles nos ensinaram que, mesmo quando quase tudo parecia difícil, era possível seguir em frente com dignidade.

Éramos muitos e precisávamos aprender cedo a colaborar. Para jogar futebol, por exemplo, precisávamos pedir à minha irmã Angela que falasse com nossa mãe. A autorização só vinha depois de cumprirmos nossas obrigações: buscar água no poço para abastecer a casa e varrer o enorme quintal. Só então o futebol estava liberado.

Meu pai também foi um homem de coragem. Ter sete filhos naquela época já era uma grande responsabilidade, e depois vieram mais dois, em dias melhores. Ele encarava aquela realidade com obstinação, trabalhando e fazendo o possível para que nada faltasse aos filhos.

Tivemos também pessoas importantes que contribuíram para nossa caminhada. Meu tio Haroldo, irmão de meu pai, funcionário do Banco do Brasil, ajudou muito nossa família, especialmente meu pai. Sua presença foi significativa em uma época em que qualquer ajuda fazia enorme diferença.

Na educação, tivemos a querida professora Dona Nilza, que nos preparou para o exame de admissão ao ginásio. Naquele tempo, para entrar no ginásio, era necessário prestar um concurso. Ela teve participação importante na formação de vários de nós e, de alguma maneira, ajudou a abrir caminhos para o futuro.

As lembranças familiares são muitas.

Aos domingos, às vezes, meu tio Haroldo aparecia para almoçar em nossa casa. Eram momentos simples, mas que ficaram guardados na memória.

Minha avó Lucia e seu marido, Agenor, também foram personagens importantes da nossa infância. Agenor nos proporcionava pequenas alegrias que, para nós, tinham um valor enorme. Era ele quem nos levava ao barbeiro para fazer aquele corte chamado “Príncipe Danilo”. Depois, ainda recebíamos um dinheirinho para comprar doces. Isso acontecia aos sábados e era uma verdadeira festa.

Ele também ajudava com o dinheiro da passagem do bonde para os irmãos que estudavam mais longe de casa. Eu fui um dos beneficiados. Hoje parece algo pequeno, mas naquela infância cada moeda tinha um significado especial.

Aos sábados, assistíamos à série “Bonanza”. Em determinada época, o professor de violão, Domiro dava aulas para meu irmão Cândido. Por volta das dez da noite, após a série, a  minha mãe preparava aquele chocolate quente com pão e manteiga. Não havia luxo, mas havia aconchego. E talvez seja justamente por isso que essas lembranças tenham permanecido tão vivas.

Quando minha avó ficou gravemente enferma, passamos a dormir na casa dela. À noite, íamos em duplas para lá. Durante a tarde, quando voltávamos da escola, levávamos o almoço de bicicleta. Eram responsabilidades que faziam parte da nossa rotina e que, sem percebermos, ajudavam a formar quem seríamos no futuro.

Olhando para trás, percebo que fomos pobres em bens materiais, mas ricos em experiências, afeto e valores.

Havia dificuldades, mas também havia sonhos. Havia pouco dinheiro, mas existia disposição para trabalhar. A casa era simples, porém cheia de filhos, vozes, brincadeiras, obrigações, broncas, risadas e histórias que hoje se transformaram em saudade.

Minha mãe foi uma mulher dedicada à família. Junto com meu pai, construiu, dentro das possibilidades que tinham, um lar onde aprendemos a respeitar as pessoas, a valorizar o esforço e a compreender que a vida exige coragem.

Hoje, quando penso nela, não quero lembrar apenas da ausência. Quero lembrar da mulher que esteve presente em tantos momentos da nossa formação. Quero lembrar de suas mãos, de suas preocupações, de suas correções, de suas renúncias e, principalmente, do amor que existia por trás de tudo.

Nove filhos representavam uma enorme responsabilidade. Criar uma família numerosa naquela época era uma verdadeira luta. Mas eles venceram essa batalha da maneira que puderam, com trabalho, perseverança e fé no futuro.

Nós, filhos, somos parte desse legado.

Alice, Cândido, Marco Aurélio, Almir, Angela, Ana Cristina, Telma, André e eu, Angelo, carregamos histórias diferentes, mas temos uma origem comum. Somos frutos de dois seres humanos que fizeram o melhor que podiam com os recursos que possuíam.

Hoje entendo que a maior herança de meus pais não estava na casa, no dinheiro ou nos bens que não tivemos.

Estava em nós.

Está naquilo que aprendemos. Na maneira como fomos educados. Na dignidade que recebemos. Na coragem para enfrentar as dificuldades. Na importância da família. Na lembrança dos pequenos gestos. E, sobretudo, no amor que permanece mesmo depois que alguém parte.

Minha mãe se foi, meu pai, também, mas suas histórias continuam vivas em cada um de nós.

Enquanto houver memória, haverá presença.

E enquanto seus filhos puderem contar essas histórias, ela continuará vivendo dentro da nossa família.

Minha mãe deixou saudade.

Mas deixou, acima de tudo, um legado.

E esse legado somos nós.

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Bodas de Ametista.

Hoje, meu coração se enche de gratidão ao celebrar, ao lado da minha amada esposa, Tania Fátima Gouveia dos Santos, uma das maiores bênçãos da minha vida. Cinquenta e oito anos desde dia em começamos a nos conhecer. Eu, olho para trás e vejo uma caminhada repleta de momentos que jamais serão esquecidos. Foram mais de cinco décadas compartilhando sonhos, enfrentando desafios, vencendo obstáculos, sorrindo nas alegrias e encontrando forças um no outro nos dias difíceis. Nossa união floresceu e se transformou em uma família maravilhosa. Dessa história nasceram nossos quatro filhos: Marcelo, Gláucia, Aline e Augustus, presentes que deram ainda mais significado à nossa jornada. O tempo também nos presenteou com a alegria de sermos avós. Os netos Natália, Matheus, Sara, Gabriel e Carolina, trazendo-nos novos motivos para sorrir, amar e agradecer. E, como uma linda continuidade dessa história, recebemos nossa querida bisneta, Melissa, que representa a nova geração de uma família construída com muito carinho. São um pouco mais de meio centenário de lembranças, aprendizados, conquistas e, acima de tudo, amor. Cada ruga carrega uma história. Cada fotografia guarda um instante; cada integrante da nossa família representa um pedaço dessa caminhada. Hoje não celebramos apenas uma data. Comemoramos a vida que construímos juntos, os laços que permanecem fortes e a família que nasceu daquele compromisso assumido há tantos anos. Tania, minha companheira de vida, eu agradeço por cada dia ao seu lado. Que possamos continuar caminhando juntos, com serenidade, carinho e gratidão por tudo àquilo que vivemos e por tudo que ainda teremos a oportunidade de viver. Que nessa Bodas de Ametista sejam lembrados não apenas como uma marca no calendário, mas como o testemunho de que o amor verdadeiro se fortalece quando é cuidado, respeitado e compartilhado. Cinquenta e oito anos juntos. Uma história de amor, uma família, muitas memórias e um coração cheio de gratidão.

 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Evolua um pouco, todos os dias.

Não transforme sua jornada em uma disputa para provar que você é superior aos outros. O verdadeiro progresso acontece quando você olha para quem era ontem e percebe que hoje pode fazer um pouco melhor. Pequenos avanços, quando mantidos com constância, criam grandes mudanças. Aprender algo novo, corrigir um erro, desenvolver uma habilidade ou simplesmente não desistir diante de uma dificuldade já representa crescimento. Em vez de buscar reconhecimento, busque evolução. Em vez de comparar sua trajetória com a de outras pessoas, concentre-se no seu próprio caminho. Você não precisa alcançar a perfeição. Precisa apenas continuar avançando, um passo de cada vez. O objetivo não é ser o melhor, mas construir uma versão mais preparada, forte e consciente de si mesmo a cada novo dia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O redemoinho de meu destino.

Um redemoinho atravessou a minha existência e arrancou do chão tudo aquilo que eu acreditava ser permanente. Diante de uma força implacável e esmagadora, vi meus caminhos desaparecerem, meus planos perderem o sentido e minhas certezas se transformarem em poeira. Nada parecia acontecer a meu favor. Segui sem mãos estendidas, sem amparo, sem um lugar que pudesse chamar verdadeiramente de meu. Senti-me como um apátrida da própria vida, alguém sem território onde fincar raízes, condenado a caminhar entre partidas e esperas. Havia momentos em que eu avançava apenas para descobrir que continuava no mesmo ponto, preso a uma estagnação que pesava sobre os ombros e silenciava qualquer esperança. Mas, quando já não encontrava forças para me erguer, surgiu uma mulher. Ela não apagou as ruínas nem fingiu que minhas feridas não existiam. Simplesmente permaneceu ao meu lado. Com sua presença, devolveu cor ao que parecia condenado ao cinza e despertou em mim a coragem de reconstruir aquilo que o caos havia destruído. Foi através dela que comecei a compreender que minha identidade não precisava permanecer presa ao passado. Eu poderia escolher novos contornos, novos sonhos, outra maneira de existir. Aquela mulher tornou-se uma espécie de ponte entre quem eu fui e quem ainda serei. Não me mostrou um caminho pronto; apenas me fez acreditar que ainda havia caminhos possíveis. O redemoinho levou muito de mim, mas não conseguiu carregar tudo. Restou uma pequena chama, quase invisível, esperando pelo instante certo para crescer. Hoje, mesmo sem saber exatamente para onde vou, começo a levantar os olhos. Talvez meu destino não esteja perdido. Talvez esteja apenas esperando que eu tenha coragem de desenhá-lo novamente, com outras cores, sob um céu que ainda não conheço. Aquela mulher é a fé e a resiliência que o redemoinho não conseguiu arrancar de mim. Hoje, mesmo sem saber exatamente para onde vou, começo a levantar os olhos. Talvez meu destino não esteja perdido. Talvez esteja apenas esperando que eu tenha coragem de desenhá-lo novamente, com outras cores, sob um céu que ainda não conheço.

sábado, 22 de agosto de 2026

Um lavrador rico de esperança.

Sou lavrador e vivo com simplicidade em meu humilde palacete, situado no agreste. Embora meus bens materiais sejam modestos, considero-me um homem rico, pois tenho muitos amigos e sou grato a Deus por todas as bênçãos que recebi ao longo da vida. Levanto-me ainda de madrugada para cuidar do sítio, acompanhado pelo silêncio e pelos pensamentos que fazem parte da minha rotina. Com minha velha bicicleta, marcada pelo tempo e pela ferrugem, percorro os caminhos da propriedade. Na lida diária, preparo a terra, revolvo o solo e cultivo novas plantações com dedicação e perseverança. Meu trabalho é também uma maneira de manter a mente ocupada, alimentar a esperança e afastar a tristeza. Caminho por cada canto do sítio, observando as plantações e cuidando de tudo com atenção. Dedico-me inteiramente à lavoura, atividade que realizo com orgulho, amor e respeito pela terra. Cada semente que planto representa, para mim, a esperança de um novo começo e a certeza de que todo esforço, quando feito com dedicação, pode gerar bons frutos. Tenho a satisfação de contribuir para alimentar boa parte da população do meu município, onde sou conhecido e respeitado. As pessoas apreciam meus produtos porque cultivo de maneira natural, evitando o uso de agrotóxicos e preservando a qualidade dos alimentos que chegam às suas mesas. Sou feliz por saber que, com minhas próprias mãos, participo do crescimento da comunidade e contribuo, ainda que de maneira simples, para o desenvolvimento do nosso país. Minha riqueza não está no dinheiro, mas na amizade, na fé, no trabalho honesto e na alegria de colher os frutos de uma vida dedicada à terra. Sim, carrego no peito a bravura e o orgulho de ser brasileiro, acreditando que cada cidadão pode contribuir para o progresso do Brasil. Sou apenas um lavrador, mas sou rico de esperança, porque aprendi que a verdadeira riqueza está em trabalhar com dignidade, cultivar bons sentimentos e nunca deixar de acreditar em dias melhores.

 

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Os encontros e as permanências.

A vida tem um jeito bonito de aproximar pessoas que não estavam nos nossos planos. Alguns encontros passam depressa. Outros ficam, mesmo quando as conversas diminuem e os caminhos parecem tomar rumos diferentes. Há pessoas que deixam lembranças. E há aquelas que deixam presença. Talvez porque certas conversas ultrapassem as palavras. Quando existe intimidade, verdade e carinho, alguma coisa permanece.  Um pensamento, uma saudade, um sorriso inesperado ao lembrar. O destino pode nos fazer encontrar alguém. Mas são os pequenos gestos, o cuidado e a verdade que dizem o que aquele encontro realmente significou. No fim, entre tantos caminhos e tantas pessoas, algumas simplesmente ficam dentro da gente. Mesmo em silêncio. Mesmo de longe. Porque certos encontros não terminam quando existe a lealdade e o sentido da razão.

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Quando a vida vira história.

A vida não nos promete caminhos fáceis, mas oferece razões para seguir. Haverá dias de silêncio, outros de tempestade e muitos em que o coração precisará aprender a caminhar mesmo sem compreender a direção. É nesse percurso que descobrimos que nem toda dor chega para ferir. Algumas vêm para despertar. Nem toda perda representa um fim, mas certas despedidas abrem espaço para novos horizontes. Cada experiência, à sua maneira, deixa uma lição escondida entre as páginas da existência. E talvez seja por isso que escrever tenha tamanha força: porque as palavras recolhem aquilo que o tempo espalha. Elas transformam memórias em significado, sentimentos em presença e manchas em sabedoria. Quando colocamos no papel aquilo que mora dentro de nós, a alma respira. O que antes parecia apenas peso pode ganhar propósito. O que aparentava ser silêncio pode finalmente encontrar voz. No fim, viver também é escrever um capítulo após outro, entre quedas e recomeços, até perceber que a verdadeira beleza não está em ter uma história sem dores, mas em aprender a transformar cada uma delas em uma narrativa que faça sentido, que nos ensine e que valha a pena ser compartilhada com aqueles dispostos a ler e compreender.