Hoje despertei recolhido, imerso em uma reflexão profunda sobre minha trajetória. Existem manhãs em que o espírito percorre caminhos internos, revisita escolhas, confronta decisões e observa o próprio destino com uma lucidez quase dolorosa. Não se trata exatamente de tristeza, mas de um estado contemplativo que convida à verdade. Até os jardins mais exuberantes amanhecem marcados por fragmentos espalhados pelo chão, úmidos não apenas pelo orvalho, mas pelo peso de já não difundirem mais fragrância nem encanto. Desbotam. Tornam-se pálidos. A brisa leva consigo aquilo que antes era cor, transformando esplendor em memória. A estação permanece quente. Ainda é verão. Contudo, levanto encharcado após madrugadas inquietas, atravessadas por aflição e isolamento, sem sua presença ao meu lado. O calor que cobre a pele contrasta com o frio que ocupa o espaço vazio. O corpo reclama em tensões e fadiga, porém nenhum incômodo se compara ao aperto que habita o peito. Essa sensação é invisível, intangível, impossível de medir neste tecido de emoções, mas profundamente real. Manifesta-se nos pensamentos insistentes, nas recordações inesperadas, na consciência que insiste em revisitar o que foi vivido. É o eco de sentimentos que ainda procuram lugar. Talvez seja a despedida de um ciclo. Talvez o receio diante do desconhecido. Ou simplesmente a consequência inevitável de ter sentido intensamente e agora aprender a continuar de outra forma. Mesmo assim, a paisagem não deixa de existir por causa das perdas que carrega. A essência permanece, ainda que transformada. A estação segue seu curso, ardente e luminosa, enquanto algo novo, silenciosamente, começa a se formar além do que se perdeu inesperadamente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário