domingo, 8 de fevereiro de 2026

Silêncios do perfume.

Víamo-nos com frequência, até que tudo mudou sem aviso. O orgulho falou mais alto e, desde então, até ao atravessar das ruas, ela finge não me ver. Ainda assim, reconheço sua presença do outro lado, não pelos olhos, mas pelo perfume que um dia se alojou no meu coração. Apesar de tudo, ainda gosto dela. Mas não me entreguei à derrota. Mantive os pés firmes no chão e o passo seguro diante daquela que um dia foi dona dos meus pensamentos. A mente, afinal, é território indomável. Tomada por devaneios, ansiedades e antigas angústias, abre arquivos esquecidos, revira memórias e deixa marcas onde antes havia sossego. Às vezes me surpreendo criando encontros que nunca acontecerão, diálogos que morreram na garganta, pedidos de perdão que talvez jamais encontrem ouvidos. Mesmo assim, apenas respiro fundo e aceito que nem todo afeto sobrevive ao peso do orgulho. Aprender, com o tempo, que gostar não é sinônimo de insistir. Há amores que permanecem apenas como lembranças, como uma canção antiga que ainda emociona, mas que já não se canta em voz alta. Sigo adiante, mesmo quando o coração insiste em reconhecer o perfume suspenso no ar. Porque amar também é saber soltar. E crescer é continuar andando, mesmo quando a saudade, teimosa, tenta atravessar a rua à nossa frente. Hoje acordei envolto por uma fragrância diferente: a fé que permaneceu, a resiliência que aprendi ao tê-la amado e o desapego necessário para deixá-la partir.

 

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