domingo, 1 de fevereiro de 2026

Quando o cérebro apronta.

Uma bola de cristal poderia dizer que ando atormentado, ansioso, como se tivesse descoberto algo que eu mesmo não sei. Não tomo ansiolíticos. Tomo café, silêncio, pensamento demais. Tenho preocupações como qualquer ser humano que respira e paga o preço de estar vivo. Mas nunca consegui aceitar com facilidade essas doenças abstratas, nomes que tentam dar forma ao que escapa. Depressão, ansiedade, rótulos que parecem caixas pequenas demais para aquilo que o peito sente. Sempre procurei agir em acordo com meus pensamentos, como quem tenta manter uma linha reta em terreno instável. Acreditei que coerência fosse uma espécie de proteção. Mas há algo que nos trai com delicadeza e crueldade ao mesmo tempo. O cérebro? Sempre ele! Ele lembra quando devia esquecer, cria fantasmas onde só havia portas fechadas, repete perguntas sem aceitar resposta. Tive muitos amores. Alguns interesseiros, outros sinceros ou pelo menos tão sinceros quanto conseguiam ser. Houve encontros que morreram por cansaço, outros por choque de gênios, como planetas que até se atraem, mas não sabem dividir a mesma órbita. Não carrego mágoa de todos. Carrego aprendizado de quase nenhum. Quanto ao amor aprendi, nem sempre falha por falta de sentimento. Às vezes falha por excesso de humanidade. E assim sigo não doente, não curado, apenas consciente. Sabendo que pensar demais cansa, mas pensar de menos custa caro. Sabendo que o coração sente, mas é o cérebro que insiste. No fim, talvez não seja ansiedade.

Talvez seja só a lucidez de quem amou muito e continuou inteiro o suficiente. Eu sou mais forte que eu.

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