sexta-feira, 15 de maio de 2026

Entre relãmpagos e ausências.

O vento golpeava as janelas como mãos impacientes exigindo entrada. A madrugada avançava pesada, úmida, sufocante, enquanto o quarto mergulhava numa penumbra quase viva. O silêncio entre um trovão e outro parecia maior que o próprio mundo. Permaneci imóvel diante da tela apagada do meu humilde notebook ainda apagada, aguardando coragem para ligá-lo, a fim de encarar reflexos distorcidos daquilo que restava de mim. A tempestade lá fora apenas imitava o caos instalado em meu peito. Cada clarão revelava memórias enterradas em orgulho, promessas frágeis, sonhos construídos sobre areia. Recordei conversas interrompidas, olhares desviados, gestos pequenos que foram ignorados pela cegueira de um amor desmedido, além do limite aceitável. Talvez a ruína tenha começado muito antes do adeus; talvez nascesse silenciosamente dentro da esperança insistente que eu alimentava todos os dias. A culpa sentava-se ao meu lado como companhia inseparável. Respirava junto comigo, pesada, cruel, lembrando-me de cada palavra dita fora de hora, cada silêncio mantido quando coragem era necessária. Descobri tarde demais que afeto não transforma ninguém. Não supera distâncias. Não corrige vazios antigos escondidos dentro da alma humana. Lá fora, o céu parecia rasgar-se em fúria. Aqui dentro, entretanto, nenhuma explosão superava a percepção amarga da perda. Não havia mais retorno, reconciliação ou explicação capaz de reconstruir aquilo que desabou. Restavam fragmentos. Fotografias esquecidas, mensagens antigas, perfumes presos na memória e uma saudade agressiva consumindo lentamente minhas últimas certezas. Ainda assim, entre sombras e arrependimentos, algo persistia respirando sob os escombros. Talvez orgulho ferido, talvez simples instinto de sobrevivência. Porque até mesmo minhas noites intermináveis acabaram cedendo espaço ao amanhecer, embora certas cicatrizes permaneçam eternamente abertas sob a pele, pulsando saudades.