sábado, 26 de setembro de 2026

O úktimo amor do ipê.

Quando o primeiro tijolo foi assentado, o pequeno ipê também encontrou seu lugar na terra. O condomínio ainda era jovem, com paredes recém-erguidas e janelas que ainda não conheciam as histórias que um dia guardariam. Ao lado dele, o ipê começava sua caminhada, delicado, quase frágil, mas carregando dentro de si a promessa de se tornar grande. Cresceram juntos. Enquanto o prédio ganhava moradores, vozes, risos e lembranças, o ipê esticava seus galhos em direção ao céu. Suas raízes penetravam silenciosamente o solo, como se quisessem abraçar para sempre aquele lugar que também era sua casa. E assim fizeram um pacto sem palavras. O condomínio lhe oferecia abrigo. O ipê oferecia sombra, flores e beleza. Era uma espécie de simbiose, uma amizade construída sem contratos, sem assinaturas, sem testemunhas. Apenas o tempo como testemunha. Mas o tempo, que aproxima, também transforma. Vieram novos moradores. Alguns nasceram ali, outros chegaram depois. Proprietários partiram, inquilinos ocuparam seus lugares, crianças cresceram e levaram consigo os amores da infância. E ninguém percebeu que o velho ipê também envelhecia. Seus galhos já não tinham a mesma força. Suas folhas rareavam. O tronco carregava as cicatrizes de muitas estações. Debaixo da terra, porém, suas raízes continuavam avançando, procurando espaço, como se ainda buscassem o abraço daqueles que um dia viveram sob sua sombra. Talvez fosse ressentimento. Talvez apenas a natureza seguindo seu curso. As raízes começaram a se aproximar perigosamente do condomínio, provocando, silenciosamente, aquilo que um dia parecia impossível: o velho amigo passou a ameaçar a própria casa que acompanhara nascer. E então veio a dolorosa constatação. O ipê estava morrendo. Não havia mais como devolver-lhe a juventude, nem pedir ao tempo que voltasse. A árvore que havia crescido junto com o condomínio precisava ser retirada para que aqueles que ainda habitavam suas paredes pudessem permanecer seguros. Será um corte necessário, mas jamais será um simples corte. Porque não se derruba apenas uma árvore. Derruba-se uma testemunha de décadas. Cairão os galhos, tombará o tronco, desaparecerá a sombra. Mas permanecerá a história daquele pequeno ipê que nasceu quando o condomínio também nascia e que, durante tantos anos, acompanhou silenciosamente a vida de todos. Talvez seja essa a mais triste lição do tempo. A separação de um amor infinito enquanto durou.

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