O murmúrio do rio, naquela noite, não me deixava dormir. Da
janela de casa, contemplava a madrugada sob a luz pálida da lua. Era uma dessas
noites em que o silêncio parece possuir voz. Os pirilampos pairavam sobre a
estreita passagem da viela, pequenos pontos luminosos entre as sombras. Ali
perto, o Rio Pardo atravessava Paty do Alferes, correndo inquieto. A correnteza
carregava folhas e pequenos galhos. De quando em quando, um redemoinho surgia
junto à margem e logo desaparecia, como se alguma coisa, escondida sob a
superfície, respirasse. Afastei-me da cama e permaneci algum tempo junto à
janela. Foi então que ouvi um som diferente. Primeiro, pensei que fosse o vento
passando entre as árvores. Depois, pareceu-me um choro. Aproximei-me do vidro.
Entre o barulho das águas e o sopro frio da madrugada, distingui um chamado
aflito. Abri a janela. E então a vi. Uma mulher. Ela estava parada na viela,
alguns metros adiante, como se tivesse acabado de sair do rio. Os cabelos
úmidos grudavam no rosto. A roupa estava encharcada. Tremia de frio. Havia nos
seus olhos uma tristeza antiga. Por um instante, pensei que estivesse diante de
uma aparição. Não sei por que pensei nisso. Talvez fosse a hora, talvez a
neblina baixa sobre o rio, talvez aquela maneira estranha como ela permanecesse
imóvel, olhando para a minha casa. Abri a porta. Ela entrou sem dizer palavra. Entreguei-lhe
uma toalha e acendi a lareira. Deixei suas roupas perto do fogo. Enquanto as
chamas cresciam, ela permaneceu sentada, as mãos estendidas para o calor. Aos
poucos, começou a falar. Contou-me dos irmãos. Falou de uma grande propriedade
onde vivera durante muitos anos. Mencionou pessoas e acontecimentos que
pareciam pertencer a uma vida distante, embora, pela maneira como comentava, ainda
estivessem muito próximos dela. Algumas coisas preferiu não contar. Falou,
sobretudo, da vontade de ir embora. Disse que precisava começar de novo. Eu a
escutava sem fazer muitas perguntas. Havia histórias que pareciam pedir apenas
um lugar onde pudessem ser ditas. Não me perguntou quem eu era. Talvez não
importasse. Quando suas roupas secaram, vestiu-se e ficou alguns instantes
diante da porta. Antes de sair, olhou para mim e agradeceu. Em seguida, partiu.
Fiquei observando enquanto ela desaparecia pela viela. Por alguns segundos,
ainda pude distinguir sua silhueta sob a luz fraca da lua. Depois, a noite
voltou a ser apenas noite. Ou pelo menos foi isso que pensei. Algum tempo mais
tarde, soube que ela havia reconstruído a vida longe dali. Tornara-se uma
cabeleireira de excelência, com muitos clientes e admiradores. Tinha uma casa,
novas amizades e uma vida que, segundo me disseram, parecia finalmente lhe
pertencer. Nunca mais a vi. Eu continuei onde estava. As mesmas paredes. A
mesma janela. O mesmo rio. Mas, depois daquela madrugada, comecei a escutar a
correnteza de outra maneira. Às vezes, durante a noite, levanto-me até a
janela. Fico ali, ouvindo a água passar. Pensando nela. Não sei por quê. Só sei que alguma coisa naquela
mulher permaneceu em mim. Talvez porque, sem perceber, eu tivesse começado a
reconhecer nela alguma coisa que também existia dentro de mim. Eu também adiei
minha partida. Repito os mesmos dias, percorro as mesmas ruas, olho pela mesma
janela e digo a mim mesmo que ainda não é o momento. Às vezes me pergunto se
aquela mulher realmente apareceu na minha porta ou se foi apenas uma dessas
histórias que a memória transforma com o passar dos anos. Como se alguns
encontros durassem uma noite inteira. E outros, uma vida.
domingo, 27 de setembro de 2026
A mulher que veio com as águas.
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