sábado, 19 de setembro de 2026

Um passo além das ondas.

Imagine uma criança pequena diante do mar. As ondas são grandes. A correnteza é forte. A areia molhada cede sob seus pequenos pés, e cada nova onda parece querer derrubá-la. Ela mal sabe caminhar. Mesmo assim, insiste. Desequilibra-se, balança o corpo, recupera o equilíbrio e permanece de pé. Talvez, naquele momento, ninguém pudesse imaginar que aquela criança já começava a aprender uma das lições mais importantes de sua vida: é possível cair, mas é preciso continuar tentando ficar de pé. A vida não seria fácil. Desde cedo, as dificuldades apareceram pelo caminho. Mas, em vez de serem apenas obstáculos, elas acabaram se transformando em aprendizado. Cada dificuldade trouxe uma nova experiência. Cada tempestade ensinou a resistir um pouco mais. E assim a sua caminhada foi acontecendo. Até que, em 1971, um novo capítulo começou. O casamento marcou o início de uma das construções mais importantes de toda a minha vida. À construção de uma família. Desse amor nasceram quatro filhos maravilhosos. Criá-los foi uma das maiores responsabilidades que já enfrentei. Houve dias de preocupação, dias de cansaço e dias em que parecia necessário encontrar forças onde já não havia mais nenhuma. Mas havia uma razão para continuar. Era preciso trabalhar, lutar e enfrentar cada dificuldade para garantir que aos meus filhos não faltasse aquilo que eu pudesse oferecer. Foram anos de dedicação. Anos de escolhas. Anos em que muitas vezes foi necessário colocar os sonhos pessoais em segundo plano para cuidar daqueles que dependiam de mim. Hoje, olhando para trás, percebo que nenhum desses esforços foi em vão. Meus quatro filhos cresceram, encontraram seus caminhos e construíram suas próprias histórias. Estão bem encaminhados, seguindo suas vidas e escrevendo novos capítulos daquilo que um dia começou dentro do nosso lar. E então vieram os netos. E depois, há pouco tempo, uma bisneta. A vida, de certa maneira, devolveu em forma de amor tudo àquilo que um dia foi plantado com esforço. Aquela árvore que começou a ser cultivada há tantos anos agora apresenta seus frutos. A casa ganhou novas vozes, novos sorrisos, nova histórias. E, aos 76 anos, existe uma sensação difícil de eu explicar, mas fácil de compreender. Eu venci. Não venci porque nunca tive problemas. Não venci porque o caminho foi tranquilo. E muito menos porque todas as coisas aconteceram exatamente como eu planejei. Venci porque persegui conquistas. Continuei quando era difícil. Continuei quando o cansaço aparecia. Continuei quando o mar estava revolto. E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores lições que a vida pode nos ensinar. Muitas pessoas passam anos esperando o momento certo para começar alguma coisa. Esperam ter mais dinheiro. Esperam ter mais tempo. Esperam que tudo esteja organizado. Esperam que o medo desapareça. Mas a verdade é que esse momento perfeito talvez nunca chegue. Enquanto esperamos, a vida continua acontecendo. Os sonhos envelhecem. As oportunidades passam. E aquilo que poderia ter começado ontem permanece apenas como uma possibilidade para amanhã. Por isso, talvez seja necessário começar mesmo sem ter todas as respostas. Dar o primeiro passo mesmo sem saber exatamente aonde ele vai nos levar. E continuar caminhando mesmo quando o caminho parece difícil demais. Mas existe algo ainda mais importante nessa caminhada. A fé. Foi à fé que sustentou muitos passos quando a força parecia acabar. Foi à resiliência que me ajudou a atravessar momentos em que não era possível enxergar o que havia depois da tempestade. É a fé que nos lembra de que uma fase difícil não representa necessariamente o fim da história. O mar pode estar revolto hoje. Mas isso não significa que estará assim para sempre. Talvez a grande vitória da vida não seja conseguir evitar as tempestades. Talvez seja aprender a atravessá-las. Porque são as tempestades que nos ensinam a reconhecer nossa própria força. São as dificuldades que revelam aquilo de que somos capazes. E são os anos que nos permitem olhar para trás e compreender que muitas das batalhas que pareciam impossíveis de vencer eram, na verdade, parte da construção da nossa história. Hoje, olhando para a caminhada, vejo muito mais do que dificuldades superadas. Vejo uma família. Vejo quatro filhos. Vejo netos. Vejo uma bisneta. Vejo uma história construída com trabalho, amor, persistência e fé. E, principalmente, vejo uma vida que valeu a pena ser vivida. O mar que um dia parecia tão ameaçador ficou para trás. O horizonte agora é mais amplo. E aquela criança que um dia lutava para permanecer de pé diante das ondas pode finalmente olhar para o caminho percorrido e dizer: Eu sou vencedor e agradecido à Deus, por tudo. Não porque o mar deixou de existir. Mas porque aprendi a não deixar que as ondas decidissem até onde eu poderia chegar. E talvez seja essa a mensagem que eu gostaria de deixar para quem lê estas palavras: Não espere a vida ficar perfeita para começar. Comece com o que você tem. Comece onde você está. Tenha coragem para enfrentar as ondas. Tenha paciência para atravessar as tempestades. E, acima de tudo, tenha fé. Porque enquanto houver fé, sempre haverá uma razão para dar mais um passo. E, às vezes, tudo o que precisamos para mudar uma história inteira é justamente isso: mais um passo.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário