A manhã derrama chuva sobre a janela e um frio sem nome atravessa a pele, como se o inverno tivesse escolhido morar dentro do peito. Há um vazio onde antes havia presença. Um silêncio ocupando o espaço que o teu corpo deixou e a distância cruel pronuncia teu nome sem voz. Passo noites conversando com a insônia, dias perdidos entre sombras e pensamentos, enquanto o tempo escorre devagar pelas frestas de uma alma cansada. Lá fora, somente as estrelas ousam acender o escuro, pequenas brasas celestes velando por mim quando já não encontro luz alguma. Então ergo o copo num brinde àquilo que não retorna. Cada gole desce como esquecimento, tentando afogar lembranças que aprenderam a respirar mesmo, no fundo da ausência. Bebo para calar a saudade, mas ela conhece o caminho de volta. Escondo no líquido às memórias, às noites, os abraços imaginados, o perfume que insiste na lembrança e tudo aquilo que meu coração ainda se recusa a perder. Quando a chuva finalmente silencia, resta apenas a madrugada e um peito embriagado de passado. E compreendo tarde demais que certas ausências não desaparecem com o tempo. Elas apenas aprendem a doer em silêncio.
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