Já não tenho inspiração para
escrever. Desde a chegada da inteligência artificial, tudo me parece estranho,
quase antinatural. Os pensamentos que outrora habitavam minha mente como
pássaros livres, construindo imagens, emoções e expectativas para os leitores,
hoje parecem desertos silenciosos. Há um vazio que nenhuma tecnologia consegue
preencher. Recordo-me de quando a poesia possuía alma. Bastava abrir um livro e
os versos respiravam diante de nós. As flores não eram apenas palavras;
exalavam perfumes. O amor não era apenas tema; era presença viva. Havia calor
nos poemas, uma chama invisível capaz de iluminar os recantos mais profundos da
memória. Agora, porém, os tempos mudaram. Os sistemas se renovam, os costumes
se transformam e os hábitos antigos parecem condenados ao esquecimento. Dizem
que devemos acompanhar essa evolução. Talvez seja verdade. Quem sabe não exista
outro caminho. Mas sinto falta da beleza simples que habitava as coisas. Sinto
falta daqueles textos que se demoravam diante de uma janela aberta para o
entardecer. Dos retratos pendurados nas paredes, guardando o rosto da mulher
amada. Das cartas escritas sem pressa, nascidas da necessidade de eternizar um
sentimento. Das palavras escolhidas com o cuidado de quem cultiva um jardim. Os
pássaros continuam cantando, mas seus trinados já não chegam aos meus ouvidos
da mesma forma. Misturam-se às lembranças de um tempo em que tudo parecia mais
próximo, mais humano, mais verdadeiro. Hoje seus cantos parecem perdidos na
distância, carregando saudades que não encontram morada. Não é o futuro que me
assusta. Nem as máquinas. O que me entristece é perceber que, enquanto
aprendemos a produzir palavras com uma rapidez jamais imaginada, estamos
esquecendo o silêncio que lhes dava sentido. Porque a poesia nunca viveu nas
páginas. Ela vivia no perfume das flores, na luz que atravessava as janelas,
nos retratos cobertos de lembranças, nos cantos dos pássaros ao amanhecer e no
coração daqueles que ainda sabiam sentir. E talvez seja justamente por isso que
as palavras já não floresçam como antes.
domingo, 1 de novembro de 2026
Quando as palavras já não florescem.
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