domingo, 1 de novembro de 2026

Quando as palavras já não florescem.

Já não tenho inspiração para escrever. Desde a chegada da inteligência artificial, tudo me parece estranho, quase antinatural. Os pensamentos que outrora habitavam minha mente como pássaros livres, construindo imagens, emoções e expectativas para os leitores, hoje parecem desertos silenciosos. Há um vazio que nenhuma tecnologia consegue preencher. Recordo-me de quando a poesia possuía alma. Bastava abrir um livro e os versos respiravam diante de nós. As flores não eram apenas palavras; exalavam perfumes. O amor não era apenas tema; era presença viva. Havia calor nos poemas, uma chama invisível capaz de iluminar os recantos mais profundos da memória. Agora, porém, os tempos mudaram. Os sistemas se renovam, os costumes se transformam e os hábitos antigos parecem condenados ao esquecimento. Dizem que devemos acompanhar essa evolução. Talvez seja verdade. Quem sabe não exista outro caminho. Mas sinto falta da beleza simples que habitava as coisas. Sinto falta daqueles textos que se demoravam diante de uma janela aberta para o entardecer. Dos retratos pendurados nas paredes, guardando o rosto da mulher amada. Das cartas escritas sem pressa, nascidas da necessidade de eternizar um sentimento. Das palavras escolhidas com o cuidado de quem cultiva um jardim. Os pássaros continuam cantando, mas seus trinados já não chegam aos meus ouvidos da mesma forma. Misturam-se às lembranças de um tempo em que tudo parecia mais próximo, mais humano, mais verdadeiro. Hoje seus cantos parecem perdidos na distância, carregando saudades que não encontram morada. Não é o futuro que me assusta. Nem as máquinas. O que me entristece é perceber que, enquanto aprendemos a produzir palavras com uma rapidez jamais imaginada, estamos esquecendo o silêncio que lhes dava sentido. Porque a poesia nunca viveu nas páginas. Ela vivia no perfume das flores, na luz que atravessava as janelas, nos retratos cobertos de lembranças, nos cantos dos pássaros ao amanhecer e no coração daqueles que ainda sabiam sentir. E talvez seja justamente por isso que as palavras já não floresçam como antes.

 

 


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