segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A canção dos símbolos.

No princípio havia apenas um ponto, pequeno como uma estrela distante. Depois veio a vírgula, trazendo o fôlego suave das pausas. O ponto e vírgula hesitou entre partir e permanecer. Os dois-pontos abriram portas para mistérios antigos. A exclamação nasceu do espanto diante do amanhecer, enquanto a interrogação vagava pelos caminhos do mundo, perguntando aos ventos de onde vinha a saudade. Entre encontros e desencontros, surgiu o hífen, unindo o que estava separado, e o travessão, longo como uma ponte lançada sobre o silêncio. Os parênteses guardaram segredos, os colchetes protegeram memórias, e as chaves acolheram possibilidades que ainda não tinham nome. As aspas duplas deram voz às histórias contadas ao redor do fogo, enquanto as aspas simples preservaram os sussurros que só o coração podia ouvir. A barra dividiu caminhos. A barra invertida indicou o retorno inesperado. A barra vertical ergueu-se como um marco entre horizontes, lembrando que toda jornada é feita de escolhas. A arroba conectou pessoas distantes. A hashtag reuniu sonhos sob uma mesma bandeira. O cifrão lembrou os tesouros da matéria, mas a porcentagem recordou que nenhuma riqueza é inteira. O &, comercial celebrou as alianças, desenhando no ar uma clave de sol invertida. O asterisco brilhou como uma constelação perdida na vastidão da noite. O sinal de mais somou afetos. O igual buscou equilíbrio entre forças opostas. O símbolo menor que ensinou humildade e o maior que falou sobre crescimento. Sobre algumas palavras, o circunflexo ergueu pequenos montes de abrigo. O til dançou como uma onda suave, emprestando ao idioma o balanço do vento e do mar. Ao longe, o símbolo de grau cintilou como um astro discreto no firmamento. O masculino e o feminino caminharam lado a lado, recordando que a linguagem também é feita de identidade, presença e pertencimento. E o sublinhado permaneceu discreto, sustentando as palavras como a raiz sustenta a árvore. As reticências prolongaram os ecos daquilo que não podia ser dito, deixando suspensas no ar as frases que ainda buscavam nascer. Assim, símbolo por símbolo, escreveu-se uma linguagem feita de encontros, pausas, perguntas, caminhos e sonhos. E quando o último verso terminou, o pequeno ponto voltou a aparecer, não como um fim, mas como a promessa de um novo começo.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário