Acho que algumas das minhas
memórias se perderam nas nuvens cibernéticas. Mesmo contando com a ajuda do
mouse, a busca tornou-se uma tarefa difícil. Talvez o problema esteja na mente,
sobrecarregada por tantos anos de atividade. Os neurônios, que trabalharam dia
e noite em carga máxima, parecem agora pedir uma pausa. Às vezes, procuro os
óculos, o celular ou algum objeto que estava nas minhas mãos há poucos
instantes e não consigo lembrar onde os deixei. Acendo as luzes e, depois,
esqueço de apagá-las. Já perdi a conta das vezes. Só percebo quando a fatura de
energia chega, trazendo a lembrança da minha distração. Meus amigos repetem a
mesma frase: “São coisas da idade.” Pode até ser. Afinal, o corpo já não
responde com a vitalidade de outros tempos. A rotina também exige mais atenção.
As refeições precisam ser equilibradas, o descanso tornou-se precioso e cada
pequeno esquecimento parece carregar consigo uma reflexão maior. Envelhecer
talvez seja aprender uma nova maneira de habitar o próprio tempo. O corpo muda,
os movimentos desaceleram, algumas lembranças ficam escondidas em algum lugar
da mente e outras permanecem vivas, como fotografias que resistem ao desgaste
dos anos. O envelhecimento é a geometria do tempo. Cada ano acrescenta uma nova
camada ao corpo, redesenhando nossas formas, modificando nossos caminhos, mas
sem apagar a base de quem fomos. Talvez seja esse o verdadeiro desafio. Acolher
as marcas que o tempo deixa em nós e seguir adiante, carregando nas lembranças
aquilo que o passar dos anos jamais conseguirá apagar.
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