quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Geometria do tempo.

Acho que algumas das minhas memórias se perderam nas nuvens cibernéticas. Mesmo contando com a ajuda do mouse, a busca tornou-se uma tarefa difícil. Talvez o problema esteja na mente, sobrecarregada por tantos anos de atividade. Os neurônios, que trabalharam dia e noite em carga máxima, parecem agora pedir uma pausa. Às vezes, procuro os óculos, o celular ou algum objeto que estava nas minhas mãos há poucos instantes e não consigo lembrar onde os deixei. Acendo as luzes e, depois, esqueço de apagá-las. Já perdi a conta das vezes. Só percebo quando a fatura de energia chega, trazendo a lembrança da minha distração. Meus amigos repetem a mesma frase: “São coisas da idade.” Pode até ser. Afinal, o corpo já não responde com a vitalidade de outros tempos. A rotina também exige mais atenção. As refeições precisam ser equilibradas, o descanso tornou-se precioso e cada pequeno esquecimento parece carregar consigo uma reflexão maior. Envelhecer talvez seja aprender uma nova maneira de habitar o próprio tempo. O corpo muda, os movimentos desaceleram, algumas lembranças ficam escondidas em algum lugar da mente e outras permanecem vivas, como fotografias que resistem ao desgaste dos anos. O envelhecimento é a geometria do tempo. Cada ano acrescenta uma nova camada ao corpo, redesenhando nossas formas, modificando nossos caminhos, mas sem apagar a base de quem fomos. Talvez seja esse o verdadeiro desafio. Acolher as marcas que o tempo deixa em nós e seguir adiante, carregando nas lembranças aquilo que o passar dos anos jamais conseguirá apagar.

  

Nenhum comentário:

Postar um comentário