terça-feira, 16 de junho de 2026

A surpresa através da porta.

A taramela da porta abriu-se e o inesperado aconteceu. Um vulto de mulher, com vestido esvoaçante, caminhou lentamente pela sala ao meu encontro. Minhas mãos gélidas e trêmulas mal conseguiam tocar seu corpo escultural. Seus olhos e lábios sedutores, os quais me prenderam ao passado dos seus beijos. Beijei muitas bocas, após sua partida, mas os sabores dos seus me desatinam até hoje. Aquele que roubei eu guardei bem fundo no meu coração. Diante de mim, surgia como uma lembrança materializada, trazendo consigo fragmentos de um tempo que jamais consegui abandonar. Cada passo ecoava suave, preenchendo o silêncio com memórias adormecidas. O perfume que a envolvia despertava sensações antigas, capazes de atravessar anos de distância e desencontros. Tentei dizer algo, porém nenhuma frase encontrou caminho entre a emoção e o espanto. Ela apenas sorriu, revelando a mesma expressão que tantas vezes iluminara meus dias. Naquele instante, compreendi que certas ausências nunca deixam de habitar a alma. Permanecem escondidas, aguardando uma oportunidade para ressurgir. A proximidade trouxe calor ao que antes era apenas saudade. Seu toque dissolveu a frieza que dominava meus dedos, enquanto meu olhar percorria cada traço daquela presença quase impossível. Não havia promessas, explicações ou cobranças. Existia somente o reencontro de duas histórias marcadas pela passagem do destino. Quando seus braços envolveram meus ombros, o mundo pareceu suspenso. O relógio perdeu importância, as horas deixaram de existir e toda dor acumulada transformou-se em ternura. Ali, entre lembranças e sentimentos preservados, descobri que o amor verdadeiro não desaparece. Apenas repousa em silêncio, esperando o momento certo para voltar a florescer.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário